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Piloto português criou um dos games mais viciantes de futebol

UOL Esporte

17/01/2015 06h00

(Crédito: Reprodução)

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Em algum momento da década de 90, é possível que o argentino Abel Balbo, da Roma, tenha sido um dos grandes jogadores do mundo para você. Se isso aconteceu, é bem provável que você tenha jogado Elifoot 98, um dos primeiros jogos manager para fãs de futebol do Brasil. Identificou-se? Então pode agradecer a André Elias, o piloto de avião português que criou o game.

Embora tenha fica conhecido no Brasil com a versão de 1998, o game é mais velho. "O Elifoot foi feito pela primeira vez para o ZX Spectrum na linguagem BASIC. Este computador se tornou popular em Portugal por volta de 1985. Havia um jogo manager à altura, mas só dava para um único jogador. Queria jogar com os amigos, mas contra eles, e como não existia o que queria, resolvi criar. Assim, fiz um jogo para eu próprio jogar", conta Elias, 44 anos, em entrevista ao UOL Esporte por e-mail.

Da primeira versão, de 1987, foram 11 anos até a quarta versão, responsável pelo boom do Elifoot no Brasil. Em 1998, o torcedor/internauta do Brasil passou a divulgar o game, com gráficos simples e farta opção de dados. As informações do futebol brasileiros alcançava clubes dos mais diversos rincões do país – times como Kindermann (SC), Portuguesa Santista (SP), Desportiva (ES), Londrina (PR), Brasil Farroupilha (RS) e Gama (DF) estavam à disposição do "treinador".

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Parece pouca coisa? Imagine conseguir os elencos de mais de 100 times do Brasil (fora de outros países) pela internet no final da década de 90. "Em 1996, o AltaVista (site de buscas) facilitou pela primeira vez a pesquisa na internet. Não havia jornais nem sites que compilassem os campeonatos, ou as equipes e estatísticas. Era necessário tentar encontrar os sites oficiais dos clubes, e mesmo assim era difícil", explicou. "Com o tempo, fui arranjando colaboradores, principalmente no Brasil, que ajudaram a compor o jogo mais famoso da época."

Aos poucos, o torcedor brasileiro foi se adequando à nova temática, comprando e vendendo jogadores, entrando em leilões, assumindo o gerenciamento de novas equipes, ampliando estádios, renovando contratos do elenco e conquistando títulos. O sucesso poderia ter sido ainda maior, não fosse um porém: como o Elifoot foi produzido inicialmente apenas em português, e teve pouca penetração em países de língua inglesa, francesa, italiana ou alemã.

(Crédito: Reprodução)

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"O Elifoot se tornou popular nos países de língua portuguesa. Infelizmente, não foi desenvolvida nos anos 80 e 90 uma versão em inglês. Isso sim, teria levado o Elifoot a uma marca de nível mundial. Há alguma penetração, embora 90% do mercado esteja nos jogadores de língua portuguesa", contou Elias. "Entretanto, para 2015 o Elifoot vai ter evolução, principalmente ao nível de interface e de estatísticas, o que pode vir a ajudar a difundir o jogo em mais países", completou. Hoje, o site do jogo tem uma versão em inglês.

Shareware x crack: o problema do Elifoot

O game, entre outras novidades para a década de 90, contava com um editor de equipes – desta forma, o próprio jogador poderia excluir e criar times e jogadores. Contra rivais como Real Madrid, Barcelona, Manchester United e Bayern de Munique, o fã poderia alinhar seu time, com os amigos de escola, bairro ou clube.

Em compensação, a versão paga do Elifoot 98 não emplacou. O jogador poderia utilizar todas as opções de compra e venda de jogadores, mas os cracks (os códigos numéricos que desbloqueavam o segredo) eram facilmente encontráveis na internet. Os planos de lucrar com o jogo – distribuído gratuitamente em uma versão limitada – perderam terreno, justamente em decorrência do sucesso feito pelo jogo.

André, ao que tudo indica, não gosta de tocar no assunto. Piloto de aviões, ele não sobrevive do Elifoot, e sim, do emprego formal. "Trabalho como piloto comercial, atividade que permite dedicar ao Elifoot de forma a manter e atualizar o jogo nas três plataformas (PC, tablet e celular), mantendo um retorno financeiro que justifica o tempo e empenho dedicados ao projeto", explica.

Em compensação, o sucesso do Elifoot rendeu muitos frutos. Jogos como Championship Manager (1992), Brasfoot (2003) e Football Manager (2005) caíram igualmente nas graças do internauta – desta vez, também em países que não falavam português. Concorrência? Não para André Elias.

"Esses jogos são mais complexos, o que os diferencia e distancia. O Elifoot preenche o nicho dos jogos simples, em que é fácil começar um campeonato com vários amigos e em uma tarde fazer três ou quatro temporadas. Daí que não é propriamente uma concorrência direta, mas sim um complemento em um outro segmento", analisa.

Graças ao ofício na aviação, André – que torce pelo Benfica, mas que se diz "Mourinhense" e "Ronaldense" – pode estar próximo aos fãs que "viciou" no Brasil. "Gosto da aviação, fotografia e astronomia. Enquanto piloto de aviões, tenho oportunidade de visitar o Brasil umas quatro vezes por ano", diz ele, feliz com a relação afetiva criada entre o Elifoot e os fãs, mesmo depois de quase 30 anos de surgimento.

"O Elifoot conta já com 28 anos de existência. As versões para telefones celulares e tablets são tecnicamente novas aplicações; mas, mesmo assim, estive em estreita colaboração com os programadores para que as características essenciais não se percam. Tem sido um projeto muito interessante de desenvolver, e é essa a principal motivação para continuar cada vez mais longe", analisou.​

Emanuel Colombari
Do UOL, em São Paulo

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